quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

É PRECISO LUCIDEZ

É PRECISO LUCIDEZ

A ditadura deixou marcas indeléveis na minha alma. Quem não viu, não viveu, não sabe a mínima sobre os efeitos nefastos da falta de liberdade.
Minha mãe perdeu a Inspetoria Regional de Ensino por causa de política.1966. Ano de nomeações de governadores em parte dos Estados. O Paraná ainda elegeu Pimentel antes das eleições serem substituídas por escolhas entre deputados estadua...is na maior parte da federação.
Meu pai muitas vezes foi viajou e a gente temeu pela segurança dele, pois ele corria um território grande representando o IBGE, mas era do MDB. Uma vez o delegado de Pitanga mandou eu avisá-lo pra não ter comício em Santa Maria. Palanque montado, meu api apresentado Richa, Alvaro, Penharbel Filho, Leite Chaves. De repente o tiro de aviso. O pai desmobilizou o palanque e foi pro corpo a corpo. Eu tava bem na frente do seu André neste momento. Santa Maria, 1974.
Em uma outra viagem meu pai foi tirar um compadre dele da prisão em Ivaiporã. O cara era candidato a deputado estadual pelo MDB. Seu André me pediu"não conta pra mãe pra não preocupar. Quero ver se volto até as 8 da noite"
Uma vez o delegado me viu cantando Pra não dizer que não falei das flores. Disse que tinha aprendido numa fita de uma amiga. Ele queria por toda lei saber quem era ela. E me pediu pra nunca mais cantar aquela música. Isto foi em 1976. Ano de perseguições políticas do ditador Geisel e sua turma. Nesta época, 1976/1977, mataram(hoje sabemos) JK e Jango, fecharam o Congresso Nacional, calaram as oposições, cassaram Alencar Furtado. Morreu Francisco Fiel Filho.
E a violência vai na alma. Uma vez falei pro sargento no Colégio da Polícia uma pequena verdade("se não fossem os alunos não seria um colégio sargento, apenas um prédio"). Pensei na hora, tô expulso. Anos depois ele me disse que não adiantava, pois eu era civil. isto foi em 1980. Ano em que as eleições foram canceladas, que os prefeitos não foram eleitos, nem vereadores, pra tentar eternizar a ditadura no poder. Ano de frases loucas de Figueiredo, aquele que daria um tiro no coco se ganhasse salário mínimo.
Mas teve Misha e a benção de João de Deus, que eu vi da Marechal Floriano ao Centro Cívico.
Teve também a campanha das Diretas Já e eu estive no comício da Boca Maldita, dia 12 de janeiro de 1984, momento irrepetível de cidadania, sepultado no mês de abril com a derrota da Emenda Dante de Oliveira e resgatado na eleição de Tancredo Neves, contra todas as circunstâncias, no Colégio Eleitoral inventado pra eternizar os militares no poder.
E a ditadura acabou de um jeito canhestro, em 1985, com o ditador fugindo pra não dar posse a seu ex-colaborador José Sarney(Ulysses fez as vezes de Figueiredo) ,- parecido com o que os ingleses fizeram na entrega de uma colônia(apagaram a luz enquanto a bandeira do Reino Unido caía e acenderam já com a do Kênia no alto . E foi neste 1985 que toda uma geração da UFPR, especialmente os ligados às esquerdas(PT, PCdoB, PCB, PSB e parte do PMDB) fez campanha pra termos diretas pra Reitor. Fiz campanha pra Salamuni e Romanó.
E deu Salamuni.
Depois veio Constituinte(1987-88), fim da censura, pluripartidarismo, Liberdade de expressão, de credo, de pensamento. Mas há ainda quem não goste de nada disso.
Anos depois , no Curso de Comunicação tiramos a placa alusiva ao reitor Alcy Ramalho, para nós, naquele momento, simbólico do métodos da ditadura.
Por tudo isto não consigo compreender como alguém que diz defender a democracia propaga o golpe, a intervenção militar, a Reforma Política que inibe eleições, sepulta partidos, cala vozes. Se o Brasil não é bom, construa um país melhor, mas escolhendo certo, votando seriamente, participando verdadeiramente e não fugindo pra praia no primeiro domingo de qualquer outubro pra não se comprometer.
Quem quer uma democracia boa participa, fala, julga,debate e o faz com paz, lucidez e equilíbrio.
Via Facebook em 2 de abril de 2014

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